EU LI #43 | Ruído Branco, de Don DeLillo



Minha história com esse livro é engraçada. Comecei a ler sabendo só ser este um livro premiado pelo, American Book Award de melhor romance, e que tocava na temática “medo da morte no mundo moderno”. Não consegui me conectar com ele, abandonei a leitura. Dali um tempo, ouvi mais sobre o autor, o norte americano Don DeLillo e suas obras. Um escritor dedicado ao retrato da vida cotidiana no século XX; temas diversos como a televisão, esportes, as complexidades da linguagem, a guerra nuclear etc. Comecei a ler de novo, chegando ao fim dessa vez, premiando eu mesma – se possível fosse – o livro.

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Ruído branco foi publicado a primeira vez em 1985. É o oitavo romance do norte americano Don DeLillo (1936- ). O livro se passa em uma pequena cidade dos EUA, chamada Blacksmith, construída quase em torno de um campus universitário. A voz narrativa, em primeira pessoa, é a de Jack Gladney, um homem de meia idade, professor de Hitlerologia nessa universidade – sim ele dá aulas sobre Hitler. Casado pela quinta ou sexta vez, com Babette, casada também pela segunda ou terceira vez. Ambos têm filhos dos outros casamentos que moram com eles.

Somos apresentados a vida familiar desse casal - Babette tem problemas com o peso, luta com o tabagismo; Jack representa tudo o que ele não é no meio universitário; vive escondendo que não sabe falar Alemão. As crianças – personagens complexos - vivem questionando, interrogando, inquirindo, pressionando os pais. TV´s e rádios ligados o tempo todo. Passeios extraordinários nos supermercados e shopping centers. Excesso de todo tipo de bens de consumo...

O livro é dividido em três partes em que basicamente acompanhamos o dia a dia dessa família tipicamente moderna. Não há uma grande trama a ser resolvida ou a jornada de um herói ou heroína; nem ação ou aventura. É só Jack narrando o seu cotidiano – com a inserção de um ou outro personagem. E aqui meus leitores é uma das características hipermega dessa obra, Don DeLillo consegue prender nossa atenção sem usar nenhum desses recursos.

Claro que há pequenos suspenses, mas para quem já leu sabe que não é isso que nos leva até a última página. É o raio-X dos ossos trincados da sociedade americana do século XX constantes em todo ocidente, que me prendeu e chocou de certa forma.

O autor descreve uma refeição dentro do carro, com muita batata frita, frango frito, katchup e mãos gordurentas; ou a geladeira cheia de comida diet e light (no séc. XXI fitness) fora da data de validade; ou a mulher que não tira a roupa de ginástica; ou o pequeno Wilder em frente ao fogão com água fervente sem interferência de um adulto; ou a esposa do terceiro casamento ligando para Jack “queria só ouvir sua voz”; ou as perguntas da filha prestes a pegar um avião internacional para a casa da mãe "e se ela não me reconhecer?" "e se ela me raptar?". Deixando ao encargo do leitor atento a mensagem ou mensagens nas entrelinhas disso tudo ou desse nada. Eis ai outro ponto auto, o livro exige interpretação ativa do leitor o tempo todo. Quase não ouvimos a opinião direta do autor, a escrita é imparcial. A identificação do vazio e a falta de sentido na vida dos personagens – ou na sociedade moderna - é por nossa conta.

Soma-se a isso, o jogo que ele faz com o “medo da morte”. O casal morre de medo de morrer (redundante, eu sei), conversam sempre sobre isso “quem vai morrer primeiro?”. Na primeira parte, esse medo parece ser algo normal, mas após a possível contaminação de Jack por uma nuvem tóxica que pairou sob a cidade, essa tensão cresce em proporções angustiantes.

Isso me sugeriu uma reflexão sobre o mundo moderno - grande avanço da tecnologia, da comunicação, da medicina, das ciências; revolução sexual, revolução das famílias, novas drogas lícitas e ilícitas... O problema da morte permanece inalterado, o ser humano continua morrendo. A morte não ficou moderna.

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Há coisas que me incomodaram bastante, despertaram certo asco até, principalmente em torno dos personagens Murray e os demais professores do campus. Os episódios evolvendo o tal Sr. Gray. E o profundo ceticismo; comparações baratas entre as crenças nas religiões e a crença na tecnologia/medicina. Mas isso não é creditado também a habilidade do autor? A sociedade do século XX não foi mesmo assim? Não percebemos resquícios disso ainda, e constatamos que eles não são nada se comparados ao que vemos no século XXI ? Tenho que admitir, o livro é bom. Ao menos por conseguir nos incomodar pelo que já há muito tempo não nos incomoda mais. E levantar é claro, o tema da morte. Lembrar-nos que a “morte” não deve ser ignorada, glamorizada, aliviada, desmentida, eliminada. É o destino dos homens. Eles precisam saber. A morte deve ser temida.

Ah! E gostei do final, não se preocupe SEM SPOILER. Não vou dizer que é um final bom, mas olhando para a obra toda, encaixou direitinho. Não sobrou nem faltou.

- Você pode ter fé na tecnologia. Foi ela que levou você à sua situação, ela há de poder tirá-lo daí. É pra isso que serve a tecnologia. Por um lado, ela cria o apetite da imortalidade. Por outro, ameaça destruir toda a Terra.


   PS. Meu texto sobre o livro já terminou. Aqui só um adendo que não poderia deixar de fazer. Só conheço algo capaz de suplantar dos homens o medo da morte: o Evangelho. Que não os faz ignorá-la, glamoriza-la... Os faz acreditar que alguém a venceu.

"Pois o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze. Depois disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda vive, embora alguns já tenham adormecido. Depois apareceu a Tiago e, então, a todos os apóstolos; depois destes apareceu também a mim, como a um que nasceu fora de tempo." - 1 Coríntios 15:3-8

"Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?"  - 1 Coríntios 15:55


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+ Info: Ruído Branco, Don DeLillo (1936 - ) / Publicado a primeira vez em 1985 / Edição lida: Companhia das Letras 2017, 395 páginas / Gênero: Romance

Classificação: 5 em 5
Grau de dificuldade: MÉDIO






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