EU LI #39 | A metamorfose, de Franz Kafka



Desde que li “O processo”, decidi ler a biografia de Kafka. Queria saber quem foi esse homem que escreveu o que escreveu do jeito que escreveu. Encontrei uma escrita por Gérard-Georges Lemaire, porém antes de encarar essa leitura, pensei em ler mais alguma coisa do autor. Assim li seu conto “Uma pequena mulher” e "A Metamorfose".

O ESTILO
A Metamorfose tem o início muito parecido com “O processo”, em ambos a história começa com o protagonista despertando de uma noite de sono em sua cama, algo muito comum exceto pela circunstância inusitada que vem logo depois...

Início de A Metamorfose...“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

Início de O Processo..."Alguém devia ter caluniado Josef. K., pois, sem que tivesse feito mal algum, ele foi detido certa manhã."

O que achei genial nos dois casos. O autor consegue inserir o imaginário do leitor rapidamente por causa do aspecto muito comum da cena, ao mesmo tempo em que prende completamente a sua atenção por causa da bizarrice daquela situação.

Kafka consegue também (como ninguém que eu já tenha lido) criar uma atmosfera esmagadora para o seu protagonista – esmagando também o seu leitor. É incrível. Um clima terrivelmente angustiante presente até nas poucas páginas do conto que citei acima.

Juntando todas essas peças: o comum, o bizarro e o aflitivo; a leitura de suas obras (com base no que li até agora) exige mais do leitor, em outras palavras, é uma experiência de leitura diferente, que dependendo (ou não) da carga literária até ali vai sim - em minha opinião - levar o leitor a outra plataforma (digamos assim).

A OBRA
A metamorfose é uma obra curta, uma novela, em que a maior parte da história se passa dentro da casa dos Samsa. Uma família que parece ter passado por um abalo financeiro muito grande, salvos pelos esforços do filho mais velho, Gregor Samsa, que suporta seu emprego que não gosta muito para quitar a dívida da família e supri-los em suas necessidades. 

Acontece que ele, como já se viu pelo início do livro, está impossibilitado de trabalhar (Gregor agora é um inseto monstruoso!).

O narrador em terceira pessoa foca o tempo todo nos pensamentos e sentimentos de Gregor, que acuado em seu quarto, nem consegue pensar tanto em sua condição deplorável, preocupado com o bem estar da família que a seu ver está condenada a desgraça.

Ali da fenda da porta ele assiste e escuta o dia-a-dia dos seus entes queridos e percebe uma série de mudanças acontecendo...

Seu pai que parecia tão cansado e incapaz, larga o sofá e volta a vestir a farda de militar e encontra um emprego em um banco; a mãe começa a costurar para fora e até sua irmã mais nova sai para trabalhar. As joias da família são vendidas e um cofre (que ele desconhecia) é trazido para fora com alguma economia que foi feita até com um pouco da renda de Gregor que sobrava...

A situação da família não estava tão ruim assim. Em contrapartida, a do protagonista não poderia ser pior. Sente muitas dores, dificuldades de locomoção, mau-mau se alimenta... totalmente isolado no quarto.

IMPRESSÕES
É difícil definir sobre o que exatamente é essa ficção ou qual a mensagem que o autor quis passar. Há uma ausência total de esperança na obra – fator presente também nas outras obras que li de Kafka. E sei que por isso também, a sua interpretação pode ser muito diferente de leitor para leitor.

Nessa primeira leitura (com certeza vou reler) o que mais se destacou pra mim, foi a percepção de como a depravação humana ou o mal humano pode ser sutil. Não percebido tanto por aqueles que o transparecem em suas ações, tanto por aqueles que estão padecendo esse mal infligido por outrem.

E como esse mal, pelo menos em uma visão natural do mundo é algo sem cura ou recuperação... Como ficou evidente no final do livro, quando o ciclo de toda aquela ocorrência parece recomeçar.

É um livro que sem dúvida permanecerá comigo por um bom tempo. Entre “O processo” e a “A Metamorfose” acho que gostei mais do primeiro, sabendo que a comparação não tem nem o porquê de ser feita. Apenas gosto mesmo.

A biografia de Kafka está entre as minhas próximas leituras, talvez após esta, a minha visão desse livro possa mudar (rs), por isso fiz questão de escrever as minhas impressões aqui para poder comparar. Vamos ver.


***

+ Info: A Metamorfose, Franz Kafka (1883-1924)/ Primeira publicação 1915 / Edição lida: Hedra, 2009, 109 páginas

Classificação: ★★★★★
Grau de dificuldade: FÁCIL

Crédito imagem: aqui (alterada)








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