EU LI #32 | O livro de Jó: Uma introdução, de Matheus Negri



Título: O livro de Jó: Uma introdução
Autor: Matheus Negri
Classificação: ★★
Dificuldade: FÁCIL
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Sinopse: Este trabalho tem como objetivo apresentar uma introdução a teologia do livro de Jó a partir de sua estrutura literária, verificando a teologia de seus amigos Elifaz, Bildade, Zofar e Elihú, como também de Jó e das palavras de Deus. Assim, proponho encontrar uma teologia para a unidade prosaica e uma para a unidade poética, podendo chegar a uma teologia do livro e sua implicação para a contemporaneidade.

Jó é um livro extraordinário - belo, profundo e complexo [Glória a Deus pela sua Palavra!]. Já li e reli seus 42 capítulos várias vezes de forma, digamos, devocional, mas esse ano resolvi estudá-lo. Foi assim que cheguei à pequena obra de Matheus Negri, "O livro de Jó: Uma introdução", e que bom :), gostei muito da proposta e do que foi apresentado.

Na tradição bíblica o livro de Jó faz parte juntamente com Provérbios e Eclesiastes dos livros da Sabedoria de Israel, também conhecidos como livros sapienciais, que trazem como tema principal "o temor a Deus". Cada um deles possui sua variedade de gêneros: provérbios, admoestações, confissões... no sentido de instruir o seu leitor a adaptar a própria vida à ordem fundamental do mundo, ou seja, conselhos práticos para o dia a dia. Em Jó são empregados provérbios e admoestações nos diálogos, onde surgem lamentações, hinos e ações judiciais tudo ligado ao enredo.

No senso comum o livro de Jó trata do sofrimento humano, entretanto ao introduzir esse livro bíblico Matheus Negri aponta para as diferentes interpretações e teologias nele encontradas e suas implicações. Uma delas é que o que parece está em questão não é o sofrimento humano mas a credibilidade de Deus.

A história bíblica apresenta um homem chamado Jó que era "íntegro, reto e temente a Deus que se desviava do mal" e por isso muito abençoado (bens materiais, saúde, família...); mas que em algum momento passa por um extremo sofrimento. O que entra em conflito aqui segundo os autores citados por Negri é a teologia da retribuição, na qual o justo é abençoado e o injusto paga pelas suas atitudes. Uma vez que, se Jó estava sofrendo é porque tinha pecado - e nesse sentido era acusado pelos seus amigos - porém Jó tinha convicção que não havia pecado defendendo-se o tempo todo e acusando portanto, Deus de injustiça. O próprio Deus é apresentado em várias concepções diferentes. Deus para os amigos de Jó era o Senhor da retribuição. Deus para Jó inicialmente também era o Deus da teologia da retribuição, mas sofre e se queixa por saber que não cometeu pecado; então para Jó Deus estava violando sua própria lei, é ausente quanto ao sofrimento de suas criaturas e criou um mundo sem significado. E ainda a concepção do próprio Deus (a partir do capítulo 38) o Senhor que se revela em um redemoinho ou em uma tempestade.


O autor também trata sobre a unidade prosaica e a unidade poética da história. A unidade prosaica seria a parte narrada, constante no início do livro ou prólogo, na apresentação de um novo amigo de Jó "Eliú" (no capítulo 32) e no desfecho ou epílogo. Dentre as coisas levantadas nessa unidade, destaco como bem no início do livro (capítulo 1) já fica explícito o pensamento dos israelitas, toda a prosperidade de Jó estava ligada à sua piedade; por ser íntegro, temer a Deus e afastar-se do mal, tudo em sua vida ocorria bem. São claros os reflexos ou manifestações da teologia daquele tempo, baseada no sistema de retribuição, uma crença comum e antiga de que Deus recompensa os bons e castiga os maus. Entretanto isso é colocado em discussão no próprio livro em sua unidade poética, que é composta pelos ciclos de discursos entre Jó e seus amigos incluíndo Eliú e os dois discursos de Deus com respostas de Jó. Nessa parte a teologia da retribuição é defendida pelos amigos Elifaz, Bildade e Zofar, cada um à sua maneira. Jó também demonstra acreditar fielmente na retribuição, mas entra em agonia: não pecou e está sofrendo!; então passa a enxergar Deus como o seu adversário. Na intervenção de Eliú temos o sofrimento como algo que aproxima o homem de Deus. E finalmente, Deus apresenta-se como Criador do universo, questiona Jó sobre coisas inimagináveis ao ser humano e mostra como é tolice para o homem querer participar dos segredos e mistérios divinos, indicando já - talvez - para os mistérios de sua Graça manifestas em seu Filho, que se oporia e complementaria ao mesmo tempo, o que foi revelado para Israel.

A teologia da retribuição é uma ordem divina ou uma invenção humana? É isso que o desfecho desse ótimo trabalho vai responder com considerações sobre uma possível e importante aplicação dessa antiga história para contemporaneidade.

Esse livro foi publicado de forma independente pela Amazon. Tem formato acadêmico - fator que me agradou muito pela dinâmica conhecida. Apesar de breve, o autor cumpri bem com o que se propõe: uma introdução ao livro de Jó; baseando-se em muitos autores, conflitantes entre si as vezes, o que também agrega bastante. Recomendo para quem já leu o livro de Jó e tem interesse em saber mais sobre ele.


Crédito imagem: aqui


4 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá! Que honra, parabéns pelo e-book gostei muito.

      Estou para ler "O paradoxo da liberdade em Agostinho"... possivelmente comentarei também.

      Abs.

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  2. Interessante como um livro tão pequeno da bíblia dá origem a tantos outros livros de reflexão e de análise, por vezes bem mais volumosos.

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    1. Verdade Carlos! E é incrível os níveis de profundidade de interpretação que os textos bíblicos podem ter. São acessíveis as pessoas mais leigas ao mesmo tempo que um desafio aos maiores intelectuais.

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