EU LI #29 | O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson


"Eu sabia, desde o primeiro instante de existência dessa nova vida, que eu era mais perverso, dez vezes mais perverso, um escravo de minha maldade original."

"Aconteceu comigo, como ocorre com a vasta maioria de meus semelhantes, ter escolhido a melhor parte e me encontrar desprovido de forças para conservá-la."

O médico e o monstro ou "O estranho caso do dr. Jekyll e do sr. Hyde" do escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894), foi publicado a primeira vez em 1886.

Enredo

O Sr. Utterson, advogado, guarda em seu cofre pessoal um estranho testamento de um de seus clientes, o Dr. Henry Jekyll, que confere em caso de sua morte ou desaparecimento a posse de sua herança a um tal de Sr. Hyde. Ele desconhecia totalmente quem era esse protegido do seu cliente, até que em certa ocasião ouve o que o deixa alarmado, o Sr. Hyde não passa de um patife sem caráter. Muito preocupado e curioso da origem de tal relacionamento entre um homem honrado e um totalmente censurável, passa a investigar o que estava acontecendo; chegando após um brutal assassinato e mais alguns fatos, a triste e inesperada suspeita que na verdade o Dr. Jekyll e o  Sr. Hyde são a mesma pessoa.


A duplicidade humana

Stevenson discute no romance (ou novela) a duplicidade da natureza humana, o homem não seria um, mas dois. Ele traz no conflito do Dr. Jekyll, a angústia da constante guerra interna. Por um lado o médico lutava contra os prazeres vis dentro de si para seguir a virtude, e por outro, desejava estar livre de toda restrição para mergulhar na depravação. Em uma primeira leitura pode-se ter uma impressão de que a ideia do autor seja evidenciar o lado bom e ruim do ser humano. Entretanto, creio ser além disso, pois se observarmos, Jekyll buscava viver uma vida exemplar de autocontrole, não por amor a virtude ou bom-senso, mas por medo de perder sua posição social. E depois diante da monstruosidade de Hyde o que o faz tentar reprimi-lo é o medo da punição dos crimes, ou no máximo a perca total de sua identidade. Em momento nenhum, o médico demonstra um lado puramente bom, e mais, fica evidente que ele era em menor ou maior grau escravo de Hyde, ou escravo de sua natureza vil.


Impressões finais

A narrativa de Stevenson é cativante, apesar de seus personagens não serem muito atraentes. As descrições de ambiente conseguem aproximar o leitor do clima sombrio de uma Londres fria, suja e triste. O último capítulo "Depoimento completo de Henry Jekyll sobre o caso" quando ouvimos a voz do médico em primeira pessoa é sensacional, primeiro pela explicação de toda trama, segundo, porque ouvimos claramente a opinião do autor sobre o tema em questão, que para mim, é a que mencionei, a natureza latente do homem é má e esse, é incapaz de dominá-la por completo.

Recomendo muito a leitura. Não há como o leitor não mergulhar no dilema do protagonista, e daí, refletir um pouco sobre a sua própria natureza e porque não, sobre a vida, Deus e a extrema necessidade humana de redenção.

"Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado." (João 8:34)



***
+ Info: O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson (1850-1894) / Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2014. 80p.

★★
Dificuldade: FÁCIL   

Todos os direitos reservados. Tecnologia do Blogger.