Precisamos falar sobre o Luto


Quando o luto bateu à minha porta eu estava prestes a entrar para a universidade. Eu tinha 19 anos e, como qualquer jovem, eu estava cheia de expectativas ao querer ver mais um sonho realizado. Mas, algum tempo antes eu começara a sentir uma dor constante e difícil de explicar, que me deixava de sobremodo sensível e, ao mesmo tempo, revoltada. Eu tentava abstrair-me das memórias da minha mãe, mas sempre vinham com mais força e eu as sentia mais dolorosas. Eu não queria aceitar que estava a passar – finalmente – pelo processo de luto, pois acreditava que, por se terem passado tantos anos, eu já estava a ultrapassá-lo. Mal sabia eu que apenas estava a começar…

Lembro-me, perfeitamente, como as pessoas tinham que ter especial atenção da forma como falavam comigo e de como eu repetia vezes sem conta: “se a minha mãe estivesse aqui isto não teria acontecido”; “se a minha mãe estivesse aqui eu seria mais feliz”. Chorava incontrolavelmente pelo facto de a ter perdido tão nova e ter vivido tantos momentos, sem que ela estivesse cá para ver ou que eu pudesse correr para lhe contar.

Lutei com todas as minhas forças, para não me fazer de vítima. Para permanecer na fé e entender que Deus sabia o que tinha feito, e que tinha um propósito para isso (ainda que me doesse até aos ossos). Porém, confesso que não foi fácil pois a minha alma apenas se concentrava numa dor inexplicável e eu tentava ignorá-la, e viver a vida como se nada fosse…, como se fosse página virada. Contudo, o luto não é para ser lidado assim. Ele leva o seu tempo e chega quando tem que chegar. Apesar da nossa fé, nós não somos heróis com super poderes, somos humanos. E o que aprendi é que Deus entende a nossa humanidade – embora não a aceite como desculpa para nos estagnarmos –, tanto que Ele compreende a nossa dor e o Seu Espírito nos consola enquanto a vivemos.

"Contudo, o luto não é para ser lidado assim. Ele leva o seu tempo e chega quando tem que chegar."

Das memórias mais lindas que tenho dela, era quando ela me beijava de manhã, antes de ir para o trabalho, e eu era acordada com um beijo e um cheiro de perfume novo. E mais memórias carrego – inclusive, com medo de as perder –, sobre a forma como ela falava de Jesus para as pessoas e escrevia cartas a pessoas doentes - como ela mesmo estava doente -, para que não perdessem a esperança. Recordo-me da sua compaixão para com o próximo e a alegria que a tomava. O seu sorriso e a sua gargalhada eu não consegui encontrar mais, mas certamente verei de novo.

Hoje, entendo que a morte é uma mentira para aqueles que estão em Cristo. Hoje, eu sei onde ela está e, por testemunho da sua vida, sei que ela chegou onde sempre quis estar. Hoje, eu entendo que Deus me deu uma chance incrível de a ter tido como minha mãe e amiga. E das coisas mais bonitas que uma mãe pode passar para os seus filhos é que eles tenham o prazer de exalar o bom perfume de Jesus.

Assim, encorajo-vos a não temerem a dor e o luto. Passem por ele, pois certamente não estão sozinhos. Venha quando vier, por mais doloroso que seja, só não percam a esperança da nova vida que nos aguarda. Lembrem-se: tudo aqui é passageiro.

"E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas." (Apocalipse 21:4)



   Ana Margarida, 23 anos e mora em Portugal. Formada em Ciência Política e Relações Internacionais. Escritora por vocação e paixão. Instagram

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