Amor do Pai: Aceitos

 

Durante muito tempo preocupei-me demasiado com aquilo que os outros pensavam de mim. Preocupava-me tanto, ao ponto de me esforçar para contar tudo o que fazia e planejava para que, de alguma forma, eu tivesse relevância para as pessoas à minha volta. Cheguei a justificar-me mais do que devia e a falar mais do que podia para que eu fosse aceita.

Não costumo falar muito sobre o assunto, mas talvez seja a hora de o mencionar aqui: o meu pai biológico abandonou a minha mãe quando ela recebeu a notícia que estava grávida. Assim, cresci sem pai e sem qualquer tipo de padrão masculino em casa. Eu sempre soube da história dos meus pais, o que para mim desde cedo representou uma total rejeição. Assim posso afirmar por experiência: pessoas que sofrem abandono por parte de pai ou mãe acabam por ter dificuldade em compreender o amor de Deus. Ou seja, quando uma figura qualquer de autoridade que tenhamos na nossa vida, não desempenha o seu papel, acaba por nos deixar uma herança: o medo de que aquilo ocorra novamente. Criando um círculo vicioso onde a pessoa não irá entregar-se ou mostrar quem realmente ela é com medo de ser rejeitada. Deste modo, todo o esforço será concentrado na tentativa de ser e agir conforme o que ela não é de verdade.

Por muito tempo, coloquei-me numa caixa de religiosidade. Tentava enquadrar determinadas horas de oração e de leitura da Bíblia; queria fazer tudo certo para que «Deus não se zangasse comigo». Mantive-me dentro dessa caixa por medo de ser rejeitada pelo próprio Deus. Pode parecer ridículo, mas esta é a verdade. A minha insegurança de ser abandonada pelo próprio Deus era tanta, que cheguei a deixar que o medo tomasse conta de mim e me paralisasse. Pois eu apenas cumpria com as minhas disciplinas espirituais para ser aceita, e não compreendia nem entendia que Ele me aceitava porque o Seu amor é incondicional, e Ele mesmo era o mais interessado em ter um relacionamento comigo que fosse sincero e não padronizado.

Confesso que, mesmo tendo crescido num lar cristão e criada por duas mulheres extraordinárias – avó e mãe, as minhas heroínas na fé –, eu entendi que nós temos uma história particular com Deus. E a minha começou quando eu tinha 21 anos, na universidade, onde eu já não aguentava mais ser quem eu era. Deixei que Deus tratasse das minhas feridas emocionais, e Ele começou por essa. Mostrou-me como Ele é Pai e como eu sou filha amada (Romanos 8:15-16). Fui entendendo que não preciso de cumprir obrigações para ser aceita, mas que por ser aceita, posso fazer tudo para Ele de bom grado, pois sei que sou amada.

Foi um marco para mim esse processo, entender que eu não sou uma coisa, que não sou lixo. Que eu não precisava de me justificar tanto e tentar ser aquilo que as pessoas a minha volta eram e faziam. Comecei a entender que a minha identidade estava nEle e que havia um propósito para Ele me ter criado. E que, apesar de tudo, Ele nunca me tinha abandonado. Tive sempre um Pai, mas eu não o queria ver por medo.

Hoje, longe de padrões ou categorias, só quero ser quem Ele quer que eu seja, estar e fazer o que Ele deseja. Pois, por mais que eu tente decifrar o que é melhor para mim, Ele como Pai pensa muito mais à frente, muito mais alto que eu (Isaías 55:8) e os caminhos que Ele quer que eu trilhe, de certo, serão melhores que os que eu possa escolher (Isaías 55:9). Lembrem-se: façamos a vontade do Pai, não por religiosidade, mas porque O queremos conhecer mais, porque O amamos. De certo, Ele sabe o que é melhor para nós (Romanos 12:2). Que haja em nós a coragem de vencer o medo, pois o Pai não nos deu isso. E, se podemos nos aproximar dEle foi porque Jesus, o Filho de Deus, se fez homem para que o Pai nos fosse revelado, e morreu para nos reconciliar com Ele.

Texto-base: Isaías 55:8-9
⧫ Imagem: Pinterest


  Ana Margarida, 23 anos e mora em Portugal. Formada em Ciência Política e Relações Internacionais. Escritora por vocação e paixão. Instagram

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