LENDO CONTOS | A Nova Califórnia, de Lima Barreto



"...mas era a Morte, a Morte implacável onipotente, de quem ela também se sentia escrava, e que não deixaria um dia de levar a sua linda caveirinha para a paz eterna do cemitério."

Eu li A Nova Califórnia, o conto de fevereiro do meu projeto anual de leitura. Como disse no post inicial, para esse projeto eu escolhi preferencialmente contos de autores brasileiros que ainda não li. Logo, esse foi o meu primeiro contato com Lima Barreto, e posso dizer que certamente não estava preparada para uma escrita tão afiada, tão incrível...

Tudo começa com a chegada de um tal de Raimundo Flamel em Tubiacanga, uma cidadezinha de interior. As pessoas logo começam a comentar (fofocar) sobre qual seria a origem do tal homem, até que após algumas semanas de boatos, chegam a um consenso que seria então, um químico. Certo dia, o tal “doutor químico” compartilha um segredo com três dos homens mais importantes da cidade e simplesmente some. E então, acontece algo inesperado e bizarro. Os ossos do cemitério da cidade começam a desaparecer...

O conto é suspense do início ao fim e o final (propriamente), não decepciona.

Horror

Desde que li A causa Secreta de Machado de Assis, eu passei a refletir sobre a percepção do que nos causa horror. E aqui vale lembrar do conceito de horror da escritora gótica Ann Radcliffe: “... um sentimento de obscura incerteza em relação ao mal que tanto teme.” Tememos em primeira instância, o que não podemos controlar, e para mim é sempre fascinante quando essa noção aparece na literatura não em relação à um ser imaginário ou a um desastre natural, mas em relação à própria natureza humana.

Nesse conto do Lima Barreto essa ideia não fica tão clara como no conto citado do Machado, mas aparece, intrincado com o tema da morte como não poderia ser diferente (os homens têm horror a morte – e aqui me refiro ao literal: cemitério, ossos, decomposição...); e ao revelar a ganância dos seres humanos em sua profundidade e universalidade.

É uma literatura que choca em um primeiro momento, mas muito convidativa a reflexão do “eu”. Cai o disfarce, a máscara, o alto engano... A natureza humana é corrupta: egoísta, gananciosa, invejosa... É preciso enxergar essa verdade! E cá para nós leitores, a literatura pode nos ajudar muito com isso, ou seja, colocar um espelho na nossa frente para vermos quem realmente somos (sem mimimi).

Além desse olhar politicamente incorreto para o homem, o conto faz algumas críticas à sociedade e as crenças religiosas. Para quem não associou ainda, Lima Barreto, é o autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma, um dos maiores clássicos da literatura brasileira; que não me é de todo estranho, mas que após essa pequena amostra do autor, preciso urgentemente ler.

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+info: Título: A Nova Califórnia | Autor: Lima Barreto (1881-1922) | Publicado originalmente em 1915 | Edição lida: Os cem melhores contos brasileiros do século; Rio de Janeiro: Objetiva, 2001

Classificação: 5/5

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 Kelly Oliveira. Alcançada pela Graça de Deus em Jesus Cristo. Nasceu em São Paulo, mas ama morar em BH. Formada em Ciências Contábeis pela PUC/MG e escreve desde que se entende por gente. Café ♥ Livros ♥ Sboob | Twitter | Listography

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