EU LI | Liberdade, de Jonathan Franzen


[Aquele com mais de 600 páginas]

Quando terminei de ler Ruído Branco - uma crítica à sociedade norte-americana do século XX -, só conseguia pensar em como ficaria aquela mesma ideia aplicada ao século XXI. Foi como cheguei ao Franzen, que em muitos blogs é mencionado, não sem razão, junto ao nome de Don DeLillo.

COMO ESTAMOS VIVENDO?

Ambos são escritores americanos contemporâneos, que se dedicam a uma escrita provocativa da reflexão acerca de “como estamos vivendo nessa era pós-moderna”, isso é, como estamos lidando com: relacionamentos, família, trabalho, tecnologia, crenças, política, meio ambiente, saúde, vida, morte, fome, guerra...

Uma literatura interessante ao mesmo tempo, em que, acredite em mim, desagradável. Diferente dos clássicos ou livros escritos há muito tempo, em que nos identificamos com algumas coisas e outras não, nesses livros, a identificação é de quase 100% - tudo que está escrito ali ou já vivemos, ou conhecemos alguém que já, ou ouvimos sobre aquilo em algum lugar. O ganho cultural a partir da leitura desses livros é muito grande, o problema é o efeito raio-X: passamos a enxergar as horríveis fraturas da sociedade, e por mais ruim que seja, não há como fugir do diagnóstico, fazemos parte da sociedade quebrada (quebrada lá no norte dos EUA, quebrada aqui, de norte a sul do Brasil). É melancólico ler sobre a nossa realidade.

A FRATURA MAIOR É A DA FAMÍLIA

Liberdade, o quarto romance de Jonathan Franzen (1959- ), publicado e muito aclamado em 2010 nos EUA, é uma obra grande, profunda e complexa; convidativo a releitura assim que você vira a última página, coisa que eu não pretendo fazer principalmente pela atmosfera depressiva que apontei. Portanto aqui, estou longe de querer esmiuçar o livro, vou comentar apenas alguns pontos que achei relevantes.

O poder de narrativa do autor já se apresenta no primeiro parágrafo, simplesmente ele é uma síntese de todo o livro. Conhecemos o casal Walter e Patty e os seus dois filhos, Joely e Jessica; com sua vida comum, aparentemente normal: mãe amorosa e dedicada, pai trabalhador, filhos inteligentes, uma casa bonita (faltou o cachorro rs)... Quando der repente o autor joga uma bomba e cria uma situação problema no meio da família.

Com o leitor já bem curioso, ele interrompe toda sequência do presente, e volta ao passado da mãe, Patty, contando sua infância e adolescência traumatizantes na família Emerson, que apesar de classe média alta e também aparentar ser “normal”, é totalmente desestruturada. Adiante o autor também traz o contexto familiar de Walter Berglund, que é ainda mais caótico que o da esposa, agravado principalmente pelos fatores: pobreza e doença. Fazendo o leitor entender que, na verdade a bomba lá no início não foi jogada, mas já estava lá esperando a hora de explodir.

Resumindo, o livro descreve o ciclo: famílias desestruturadas geram filhos problemáticos que, vão gerar filhos ainda mais problemáticos... O autor consegue explicar o que muitos hoje em dia estão com dificuldade de entender, a família é a base da sociedade, e aqui por minha conta, se ela é atacada, fragmentada, esfacelada... Tudo o mais será comprometido.

LIBERDADE?

O título permeia toda a obra, e em minha opinião é uma sátira. Quase todos os personagens de Franzen desfrutam de uma “liberdade”, que os escraviza, destrói, deprime... Senti que a possível pergunta que o autor queria fazer ao leitor é “O que é liberdade?”

Num tom sarcástico ele demonstra em todo enredo, que toda vez que o homem se vê livre externamente ele se torna cativo de si mesmo. O que me faz lembrar das palavras de Jesus Cristo:

Digo-lhes a verdade: Todo aquele que vive pecando é escravo do pecado. (João 8:34 - NVI)


O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor. (Lucas 4:18,19 - NVI)

E de uma frase do R.C.Sproul:
Todos nós somos escravos, de um tipo ou de outro. Ou somos escravos de Cristo, ou somos escravos do pecado. Não há outra opção para a humanidade.[1]

CONTA GOTA

O peso literário de Liberdade é inegável, gostei muito da narrativa e do estilo da escrita do autor - frases longas e parágrafos enormes -, bem como da crítica à sociedade norte-americana (e podemos dizer ocidental). Muitos já o consideram um clássico, mas talvez seja um livro datado, não sei se as gerações futuras vão entender as entrelinhas tão fácil (e se vai fazer sentido) como entendemos hoje.

Pretendo ler outros títulos do Franzen (e do Don Delillo também), mas por enquanto eu vou dar um tempo nesse tipo de leitura. Como ressaltei é uma literatura interessante, forte e necessária – para compreensão mais profunda do nosso tempo, as fraturas...as fraturas... – mas que prefiro fazer a conta gota para conseguir processar tudo - 20 dias para ler, 6 meses para pensar 😏).

Comparando com Ruído Branco, os dois estão no mesmo patamar, ambos causara-me o efeito de choque após a leitura.

Embora tenha sido difícil, ela fez o esforço com satisfação, em parte porque Jéssica e seus amigos de fato eram diferentes de Patty e sua geração – o mundo lhes parece mais ameaçador, o caminho para a condição adulta é mais difícil e menos obviamente compensador – [...]

Como tantas pessoas que entravam para a política, Joyce não era uma pessoa completamente sã;


[1] SPROUL, R.C. Estes são os últimos dias?, Editora Fiel, 2015, página 55.


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+info: Liberdade, de Jonathan Franzen | Companhia das Letras, 2011 | 608 páginas | Gênero: romance

Classificação: 4/5

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