A infelicidade humana


Por Tomás de Kempis:

Você sempre será infeliz, quem quer que você seja, ou para onde quer que vá, a menos que se volte para Deus. Por que se preocupar quando as coisas não acontecem como você gostaria que acontecessem? Será que existe alguém para quem as coisas acontecem conforme o seu desejo? Não é assim comigo, nem com você, nem com nenhum homem sobre a face da terra. Não há ninguém neste mundo, seja rei ou bispo, que não passe por alguma tribulação ou angústia. Quem, portanto, vive em melhor situação? Aquele que se dispõe a sofrer por Deus.

Muita gente fraca e enferma diz: “Olhem só! Que feliz a vida daquele sujeito! Quão rico e importante ele é, quanto poder e dignidade!”. Mas, se você erguer os olhos para as riquezas do céu, verá que todos os bens desta vida de nada valem. São todos incertos, mais incômodos do que qualquer outra coisa, pois com eles não se vive sem ansiedade e temor. A felicidade do homem não consiste na plenitude de bens temporais que possui; basta a ele uma porção moderada. Viver sobre a face da terra é sem dúvida motivo de infelicidade. Quanto mais espiritual o homem quiser ser, tanto mais amarga será sua vida presente, porque verá com maior clareza e perceberá com maior sensatez os defeitos da corrupção humana. Porque comer e beber, dormir e ficar acordado, trabalhar e descansar, e estar sujeito a outras necessidades da natureza é, sem dúvida, razão de grande infelicidade e aflição para o homem religioso, que muito se alegraria em se desembaraçar e ser liberto de todo pecado. 

Porque o homem interior é sobrecarregado demais com essas necessidades físicas enquanto vive neste mundo. Desse modo, o profeta ora com grande devoção para que seja capaz de se livrar dessas coisas, dizendo: “Liberta-me da minha aflição” (Sl 25.17). Mas ai daquele que desconhece sua infelicidade! Mais triste ainda é a situação dos que amam esta vida infeliz e corruptível. Pois há alguns que amam esta vida, embora sem trabalho e sem esmola mal consigam o básico para viver; e, no entanto, se lhes fosse possível viver para sempre aqui, jamais se importariam com o reino de Deus. 

Que gente insensível, de coração incrédulo, gente de tal modo presa à terra que em nada mais encontra prazer, senão em coisas carnais! Infelizes que são, porque no final constatarão com tristeza quão vil e sem valor era aquilo que amaram! Os santos de Deus e todos os amigos devotos de Cristo não davam valor às coisas que agradavam à carne, nem àquelas que prosperavam nesta vida. Pelo contrário, almejavam as riquezas eternas, cheios de esperança e de intenção sincera. Tudo o que desejavam se elevava para as coisas eternas e invisíveis, de modo que o desejo pelas coisas visíveis não os impulsionava para baixo. 

Ah, meu irmão, mantenha a confiança de fazer progresso na santidade, pois ainda há tempo, a hora não passou! Por que adiar dia após dia seu bom propósito? Levante-se agora mesmo e diga: “Agora é hora de agir; agora é hora de me esforçar, é a hora certa de me corrigir”. Quando você estiver atribulado e aflito, é chegada a hora da bênção. Você passará pelo fogo e pela água antes de chegar ao lugar de descanso. A menos que você se esforce com zelo, jamais obterá a vitória sobre o pecado. Enquanto tivermos de carregar este nosso corpo frágil, jamais estaremos sem pecado nem viveremos sem fraquezas e dores. Bem que gostaríamos de viver tranquilos e livres de toda infelicidade, mas, uma vez que através do pecado nós perdemos a inocência, com ela perdemos também a verdadeira felicidade. Sejamos pacientes, portanto, e esperemos pela misericórdia de Deus, até que passe a iniquidade e “aquilo que é mortal seja absorvido pela vida” (2Co 5.4). 

Ah, quão grande é a fragilidade humana, “inteiramente inclinada para o mal” (Gn 8.21)! Hoje você confessa seus pecados; amanhã, comete exatamente os mesmos pecados que confessou. Nesse momento decide examinar atentamente seus caminhos; de repente, se dá conta de que se comportou como se nunca tivesse feito decisão nenhuma. Temos, portanto, bons motivos para nos humilhar, e jamais nos considerar grande coisa, uma vez que somos tão frágeis e inconstantes. Pois aquilo que, pela graça de Deus, conseguimos depois de muito tempo e trabalho, podemos perder por sermos negligentes. 

No fim das contas, o que será de nós, que tão cedo esmorecemos! Ai de nós, se tão depressa nos entregamos à comodidade, como se tudo estivesse em paz e em segurança, quando não há ainda nenhum sinal de verdadeira santidade em nossa conversação! Precisamos muito, como quem começa a aprender, ser instruídos novamente na vida reta, se quisermos ter alguma esperança de correção futura e maior progresso nas coisas espirituais.


[Fonte: Tomás de Kempis (1380-1471) Este artigo é o capítulo 22 da obra "Imitação de Cristo" (The Imitation of Christ). Tradução de Antivan Guimarães Mendes, Editora Mundo Cristão. *Destaques em negrito independente]

*Créditos da imagem
Autor: Edvard Munch (1863-1944)
Onde ver: Galeria Nacional, Oslo, Noruega
Ano: 1893

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