Serviço Farisaico X Serviço Verdadeiro


Se o verdadeiro serviço deve ser entendido e praticado, é preciso distingui-lo claramente do “serviço farisaico”.

O serviço farisaico é prestado pelo esforço humano. Ele gasta somas imensas de energia calculando e planejando como prestar o serviço. Gráficos e mapas sociológicos podem ser projetados de modo que podemos “ajudar essas pessoas”. O verdadeiro serviço provém de um relacionamento com o Outro divino em nosso íntimo. Servimos por instigações cochichadas, por insistências divinas. Despende-se energia, mas não é a energia frenética da carne. Thomas Kelly escreve: “Descubro que ele [Deus] nunca nos guia a uma mixórdia intolerável de intranquilidade ofegante.”

O serviço farisaico impressiona-se com a “aparência”. Ele está interessado em registrar lucros impressionantes no “placar” eclesiástico. Gosta de servir, especialmente quando o serviço é titânico. O serviço verdadeiro acha quase impossível distinguir entre serviço pequeno e serviço grande. Onde se observa a diferença o verdadeiro servo parece ser frequentemente atraído para o serviço pequeno, não por falsa modéstia, mas porque ele o vê genuinamente como serviço importante. Ele recebe com agrado, indiscriminadamente, todas as oportunidade de servir.

O serviço farisaico demanda recompensas exteriores. Ele precisa saber que as pessoas vêem e apreciam o esforço. Ele busca o aplauso dos homens - com a devida modéstia religiosa, é claro. O verdadeiro serviço descansa contente no anonimato. Ele não teme as luzes e o frêmito da atenção, mas também não os busca. Uma vez que ele vive a partir de um novo Centro de Referência, o aceno divino de aprovação é quanto basta.

O serviço farisaico está muitíssimo preocupado com os resultados. Ele espera ansiosamente para ver se a pessoa servida retribui na mesma moeda. Amargura-se quando os resultados ficam aquém das expectativas. O verdadeiro serviço está livre da necessidade de calcular resultados. Ele deleita-se apenas no serviço. Pode servir os inimigos com a mesma liberdade com que serve os amigos.

O serviço farisaico escolhe minuciosamente a quem servir. Às vezes os nobres e poderosos são servidos porque isso trará certa vantagem. Às vezes os humildes e indefesos são servidos porque isso garantirá uma imagem humilde. O verdadeiro serviço não discrimina em seu ministério. Ele ouviu a ordem de Jesus de ser “servo de todos” (Marcos 9:35). Francisco de Assis escreveu: “Sendo servo de todos, estou obrigado a servir a todos e administrar as palavras suavizadoras de meu senhor.”

O serviço farisaico é afetado por estados de ânimo e caprichos. Ele só pode servir quando há um “sentimento” de servir (“movido pelo Espírito”, conforme dizemos). Saúde ruim ou sono insuficiente controlarão o desejo de servir. O verdadeiro serviço ministra simples e fielmente porque há uma necessidade. Ele sabe que o “sentimento de servir” pode, muitas vezes, constituir-se em obstáculo ao verdadeiro serviço. Ele recusa permitir que o sentimento controle o serviço, mas permite que o serviço discipline os sentimentos.

O serviço farisaico é temporário. Funciona somente enquanto se executam os atos específicos do serviço. Havendo servido, pode descansar sossegado. O verdadeiro serviço é um estilo de vida. Ele atua a partir de padrões arraigados de vida. Brota espontaneamente para satisfazer a necessidade humana.

O serviço farisaico não tem sensibilidade. Ele insiste em satisfazer a necessidade mesmo que o resultado seja destrutivo. Ele exige a oportunidade de ajudar. O serviço verdadeiro pode deixar de prestar o serviço tão livremente quando executá-lo. Pode ouvir com ternura e paciência antes de atuar. Pode servir enquanto espera em silêncio. “Servem, também, aqueles que apenas ficam firmes e esperam.”

O serviço farisaico fratura a comunidade. Na análise final (uma vez removidas todas as armadilhas religiosas) ele se concentra na glorificação do indivíduo. Portanto, ele coloca os outros a nosso débito e se torna uma das mais sutis e destrutivas formas de manipulação conhecidas. O resultado é a ruptura da comunidade.

O verdadeiro serviço, por outro lado, edifica a comunidade. Silenciosa e despretensiosamente ele vai aqui e ali cuidando das necessidades alheias; não obriga ninguém a retribuir o serviço. Ele atrai, une, cura, edifica. O resultado é uma comunidade unida.


[Texto de Richard J. Foster, Celebração da Disciplina; trecho do capítulo 9 "A Disciplina do Serviço"]


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